vácuo

void

Kampala/São Paulo, 2018-2020

Estávamos ocupados demais para sentir a ausência.

De repente, estamos vazios demais para sentir qualquer presença.

 

Cientistas descrevem o vácuo como uma casa mal-assombrada onde não se pode ver nada, mas se pode sentir partículas por instantes muito breves. Eles dizem que as partículas quânticas se comportam como fantasmas: são energias e ondas que surgem misteriosamente e se vão na mesma velocidade com a qual vieram. Estes mesmos cientistas afirmam então que o vácuo não existe e que o vazio perfeito é impossível de ser encontrado tanto na natureza quanto em um laboratório. As partículas continuam ali. São vestígios.

 

Os vestígios são índices do que um dia esteve ali. Assim como a fotografia. Vácuo é uma investigação sobre o vazio que esbarrou em estranhos vestígios de presença. Eles vazam por uma pequena rachadura em paredes
de incerteza, solidão e tristeza dentro desta casa mal-assombrada. O que interessa nestas imagens não é o vazio no sentido da utopia do nada, mas sim os respingos, as sobras, os caminhos que indicam que há ali também
um pouco disso que chamamos de futuro.

 

"Por um curto período de tempo, você pode criar energia a partir do espaço vazio", disse Cristina Benea-Chelmus, pesquisadora da Universidade de Harvard. Ela ainda complementa que "acontece espontaneamente. Não podemos saber quando vai acontecer, mas vai acontecer".

 

As imagens que formam esta série foram feitas durante período de residência artística em Kampala, Uganda, em 2018. Foram revisitadas durante este período de pandemia, em 2020, formando uma narrativa inédita e atual.

We were too busy to feel the absence.

Suddenly, we are too empty to feel any presence.

 

Scientists describe the vacuum as a haunted house where you can't see anything, but you can feel particles for very brief moments. They say that quantum particles behave like ghosts: they are energies and waves that mysteriously arise and go away at the same speed with which they came. These same scientists claim that the vacuum does not exist and that the perfect void is impossible to find both in nature and in a laboratory. The particles are still there. They are traces.

 

Traces are index of what once was there. Just like photography is. Void is an investigation into the emptiness that suddently found strange traces of presence. They leak through a small crack in the walls of uncertainty, loneliness and sadness inside this haunted house. What matters in these images is not the emptiness in the sense of the utopia of nothingness, but the splatters, the leftovers, the paths that indicate that there is also a little of what we call future.

 

"For a brief period of time time, you can create energy from empty space," said Cristina Benea-Chelmus, a researcher at Harvard University. She adds that "it happens spontaneously. We cannot know when it will happen, but it will happen".

 

The images that make up this series were taken during an artist residency in Kampala, Uganda, in 2018. They were revisited during this pandemic period, in April/2020, forming an new and up to date narrative.

© Laís Catalano Aranha